"É uma estátua o cachorro. Há uma perdiz a
metro, metro e meio do seu focinho - mas invisível. No mato espesso desta
cabeceira de córrego não há quem consiga vê-la, a não ser voando. Por isso,
o caçador que se aproxima tem que estar atento, arma preparada. A perdiz voará
de repente, depois de um salto vigoroso e assustador, sem direção definida.
A estátua: um pointer inglês de seis anos,
chamado Verdun. Animal de linhagem nobre, alimentado, criado e treinado para o
exercício que o deixa estático neste momento da caçada. Um cachorro que vale
alguns milhares de reais.
A perdiz: uma ave silvestre da família dos Tinamídeos.
Caça muito especial - pela dificuldade de acerta-la, pela esperteza com que
despista um cão de caça que não seja realmente bom; pela qualidade de sua
carne. Bela ave, plumagem cor de ferrugem raiada de negro e salpicada de manchas
avermelhadas. Aqui, neste cerrado de beira de córrego, está no seu habitat: o
intrincado capim nativo a alimenta, a aquece, a protege contra o mão-pelada e o
gavião-flexa, seus principais inimigos.
A arma: uma raridade. Fabricada pela James Purdey
and Son, a mais famosa casa de armas do mundo. Normalmente feita sob medida para
o seu dono, a um preço nunca inferior a 170 mil cruzeiros e sujeita a uma
demora de entrega de seis anos. A arma que neste momento está preparada para
atirar é uma legitima Purdey fabricada em 1904. Depois de 72 anos de uso
ininterrupto, não apresenta qualquer sinal de desgaste, não funciona com
nenhuma peça que não seja original. Tem detalhes surpreendentes para uma arma
dessa idade, como extrator automático de cartuchos e indicador - também automático
- de cartuchos deflagrados. E a elegância característica de uma espingarda
mocha (sem cão), com duplo cano paralelo e toda a bateria gravada em uma
delicada filigrana.
Tensão. O caçador agora está ao lado do
cachorro. Passa-lhe a mão esquerda pelo dorso, levemente. Com a direita, segura
a arma. E o cachorro, imóvel há quase meio minuto, avança rápido, num bote
curto.
A perdiz pula de repente, na frente do caçador,
produzindo um som característico com as asas. A arma, no ombro do caçador,
acompanha seu vôo. Tiro. Está morta.
José Roberto Lemos Paiva, mineiro de 40
anos, movimentos tranqüilos, descarrega a sua Purdey e espera Verdun ir buscar
a ave. O cachorro a entrega na mão do caçador. Ele a pega, abre-lhe o ventre e
retira as vísceras. Caso contrário, a carne fica com mau cheiro.
Recarrega a Purdey, pendura a ave num laço
especial, feito de couro de anta - o pendurico - e segue pelo cerrado,
acompanhado de Gilberto Adrien, mato-grossense de 41 anos, administrador da
fazenda Palmeira da Serra (São Manoel), local onde os dois caçam neste
momento.
É uma preparação. Sábado próximo, a temporada
de caça será aberta oficialmente em todo o país pelo IBDT - Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. Na fazenda, Gilberto e Zé Roberto caçam,
durante dois dias para exercitar Verdun e Son, pointers do Canil Caçador de
Indaiá (de propriedade de Lemos Paiva).
A caça dentro de uma propriedade particular não
pode ser controlada pelo IBDF - diz Gilberto. Se quiséssemos, poderíamos caçar
o ano inteiro aqui na fazenda. Mas é justamente nisso que reside a diferença
entre a caça por esporte e o extermínio puro e simples, apenas pelo prazer de
matar o animal se a perdiz for caçada fora da temporada, o seu ciclo natural
será quebrado. Na época da postura, uma perdiz morta significa uma ninhada
inteira exterminada. Nas vésperas da temporada, nós fazemos uma pequena
preparação, aqui na fazenda, para exercitar os cachorros e a nós mesmos. Mas
a caçada verdadeira é bem longe daqui.
É no Mato Grosso, quase fronteira com o Paraguai,
onde os cerrados são enormes, virgens, que há muita caça. Os caçadores
esperam um ano inteiro pela temporada, cuidando dos seus cachorros, arrumando
armas, chapéus, medicamentos.
No canil de Lemos Paiva, durante o ano inteiro, os
belos pointers ingleses correm dentro do cercado. São atletas, exemplares de
uma raça desenvolvida pelos ingleses no século XVIII especialmente para a caça
à perdiz. Cães de pelo curto, angulações fortes nas patas traseiras
(resultado do bom empuxo de galope), peito largo (boa oxigenação do sangue),
pescoço forte, rabo curto. Fruto de uma série de cruzamentos feitos pelos
ingleses entre cães bracos e bloodhounds, foxhounds e galgos.
Seria uma ciência criar estes cães?
- É uma ciência - diz Zé Roberto. - Um bom
canil, na minha opinião, não deve criar cachorros belos, que ganhem exposições
apenas. O cachorro, tendo boa linhagem, será belo naturalmente. O segredo do
bom canil é fazer do cão um caçador; apurar o seu instinto.
Um pointer do Canil Caçador de Indaiá recebe
cuidados que se aproximam do exagero. Quando uma ninhada nasce, Zé Roberto vai
a Botucatu e, no lixão da cidade, procura uma cadela que esteja esperando
ninhada. Essa cadela, depois de um rigoroso banho, dividirá função de
amamentar a ninhada de pointers com a verdadeira mãe dos cachorrinhos.
- Precisa ser uma vira-latas - diz Zé Roberto.
Uma vira-latas das mais fortes. Essas cadelas que vivem na rua, comendo todo
tipo de comida, desenvolvem dentro de si anticorpos muito fortes. Amamentando a
ninhada nova, ela passa os anticorpos para os pequenos cachorros; é uma forma
de vaciná-los. Geralmente, eu divido a ninhada em duas partes: metade
amamenta-se com a mãe, metade com a vira-lata. Depois eu inverto.
Na primeira semana de vida dos pequenos cachorros,
Zé Roberto viaja 200 quilômetros diariamente, de São Paulo (onde mora e tem
seus negócios) a Indaiatuba (onde fica o canil). Todo dia quer ver os filhotes,
acompanhar o seu aumento de peso, vaciná-los, dar-lhes vitaminas em mamadeira.
- É a única forma que eu conheço de tratar uma
ninhada - diz ele. - Aprendi a minha arte com João Laraya, na minha opinião o
maior criador de cachorros que já conheci. Não consigo fazer de outra forma.
Um pointer começa a se tornar caçador apenas
depois dos 10 ou 11 meses de vida (se for macho) ou dos 6 ou 7 meses (se for fêmea)
. Com essa idade, ele é mandado para treinadores de caça. Zé Roberto manda os
pointers de seu canil para Sebastião Dellacqua, em Botucatu. Esse homem - um
especialista - ensinará os cães a perceber o cheiro da perdiz em pleno ar,
seguir seu rastro pelo cerrado e, quando a tiverem acuado, permanecerem parados,
esperando um sinal do caçador para forçar o vôo da ave. Ensinará os cães a
"amarrar" a caça.
Daí para frente, os pointers deverão ser
alimentados de forma equilibrada - uma vez por dia, ração misturada à carne;
deverão se exercitar constantemente para desenvolver os músculos. No canil,
ficarão em recintos de 8x9 metros com chão de tijolos bruto, para que suas
patas se tornem mais resistentes. Dormirão sobre estrados de madeira em
casinhas de alvenaria, tomarão banho numa banheira azulejada de 1,5 metros
quadrados que existe ao lado de cada casinha.
Serão cachorros caros, mas muito procurados. O
pointer é o espírito da caçada. Sem ele, simplesmente não existe caça à
perdiz.
- Há várias
formas de se matar uma perdiz - comenta Zé Roberto. - Na época da
postura, pode-se enganar facilmente uma fêmea usando um assovio que imita o pio
do macho. Basta esconder-se atrás de uma folha de buriti, assoviar e atirar na
perdiz quando ela se aproximar (prática usada por homens do campo que merecem
nossa maior censura). Mas fora da época da postura e no cerrado - seu
habitat natural -, a perdiz é um dos animais mais difíceis de se caçar que
existe. E o cão é tudo nessa caça. Ele leva o caçador até à perdiz, ele a
"amarra", não a espanta até o caçador chegar. Ele vai buscar a
perdiz depois do tiro. O cachorro é, antes da arma, o próprio instrumento da
caçada.
Com os seus donos, os cachorros esperam a abertura
da temporada. Gilberto Adrien, por exemplo, exercita a sua cadela pointer toda
semana, na fazenda Palmeira da Serra.
- Durante o ano inteiro eu saio com ela, levo-a
para o cerrado e simulo uma caçada. Ela localiza as perdizes,
"amarra-as", faz com que voem. Há dias em que ela "levanta"
duas, três perdizes e meia dúzia de codornas. Mas não se dá um tiro nesses
treinamentos. Isso é feito só para o cão se acostumar com o campo, com a
perdiz, com a presença do caçador.
Tudo isso para o Mato Grosso, quando abrir a
temporada.
Preparam-se coletes - que precisam ser especiais,
com proteção de camurça no ombro, onde se encaixará a soleira da arma;
prepara-se a arma, que pode ser uma valiosa Purdey ou uma não menos especial
Breda Automática, fabricada também sob medida em Bréscia (Itália).
Preparam-se armas que podem ser uma destas ou qualquer outra, mas,
necessariamente, terão de ser espingardas sem cão, sem alça de mira, leves e
resistentes. Espingardas para tiros muito mais instintivos do que técnicos,
mais vontade que virtuose.
Preparam-se penduricos de couro especial para
carregar as perdizes abatidas - esses laços fechados dentro de si mesmos, que
alguns caçadores trazem preso à cintura e outros para evitar que a caça vá
batendo pelo chão - presos a uma correia passada a tiracolo.
Preparam-se bolsas muito especiais (como a de pele
de onça curtida em champanha - de Zé Roberto; ou a de couro de capivara - de
Gilberto Adrien) para guardar os soros antiofídicos
necessários em toda a caçada. Um cachorro mordido por cobra não é
coisa incomum. Prepara-se um bom categute - linha cirúrgica feita de tripa de
carneiro - para costurar qualquer corte no campo.
Encomendam-se perneiras especiais a sapateiros
amigos. Um caçador experiente não entra no cerrado com botas de cano longo.
Usa uma botina confortável - velha, de preferência - e uma lustrosa perneira
para proteger a perna contra picadas de cobra.
Procura-se o chapéu de caçada. Dizem os que
entendem, só se caça de chapéu. Pode ser de qualquer tipo: um panamá, um
velho feltro, talvez até mesmo um aristocrático Borsalino. Que seja apenas
resistente, visto que o chapéu em caçada, mais que para proteger do sol,
existe para se dar água aos cachorros, chamar silenciosamente os companheiros
num momento de tensão, sentar em cima, e - o que deve acontecer o mais
raramente possível - amassar-se violentamente no caso de um tiro perdido.
Procura-se, encomenda-se, prepara-se; tudo isso,
para o Mato Grosso, quando abrir a temporada. Por fim, acerta-se um companheiro
de caçada. Duro mister, que exige experiência, certa argúcia, sorte. "Um
bom companheiro de caçada é mais difícil de se encontrar que uma boa mulher
para um casamento", costuma dizer Zé Roberto. Pois o bom companheiro não
pode ser um cansado que não agüente a caminhada, um chato que resolva falar em
hora imprópria, um mau que cace por matar, um desprevenido que se machuque à
toa, um apagado que não saiba rir e contar casos, um descuidado que não trave
a arma, um irritante que não acerte um tiro.
Um insensível que não goste de cachorros.
Porque no Mato Grosso, com os amigos, companheiros
de caça, cachorros, acorda-se todo dia antes de o sol nascer, anda-se pelos
campos primeiro escuros, depois molhados de orvalho, depois claros com o sol da
manhã, depois esturricados com o sol do meio-dia, depois lindos com o pôr-do-sol.
Anda-se horas a fio. Encontram-se riachos, descampados, bosques, macegas. Sua-se
muito. "A caçada fica boa quando os caçadores começam a cheirar
mal" - é o que se costuma dizer. Respira-se o ar mais puro do mundo,
descansa-se nas sombras mais frescas, bebe-se a água mais gostosa.
"Em toda a história universal, desde os mais
remotos tempos, houve homens que caçavam por gosto ou por sobrevivência. Por
isso, a caça é uma espécie de privilégio, chegando mesmo a sê-lo" (José
Ortega y Gasset, in La Caza y Los Toros).
Seria este privilégio um crime?
- Não - diz Gilberto Adrien - Crime é caçar
perdizes fora da temporada, quando elas estão em época de postura. Crime é caçar
indiscriminadamente, matando dezenas de perdizes e abandonando-as no campo por não
se ter onde pendurá-las. Crime é abusar do Aldrin, dos herbicidas, dos
inseticidas e dos defensivos na lavoura, que contaminam as raízes que a perdiz
come e, num espaço de três, quatro dias, matam centenas de perdizes de uma só
vez.
- A verdadeira caça à perdiz é um esporte -
complementa. - Não se trata de um morticínio puro e simples, mas sim do exercício
de uma técnica apurada que envolve o treinamento do cão, a escolha da arma, a
preparação do caçador, a caminhada, o contato com a natureza, o instinto. É
um esporte pelo fato de nenhum caçador que se preze perseguir uma ave depois de
errar um tiro. O homem tem a sua chance, o animal também.
Em caçadas à perdiz, não se caça outra coisa,
para não se incorrer na ganância do italiano, recém-chegado da Europa e que,
no seu primeiro dia de Mato Grosso, deslumbrado com a riqueza da fauna, pensou
avistar uma onça atrás de um capoeiral. Esquecendo-se das perdizes, correu
para acertar-lhe um tiro. Aproximou-se, fez pontaria, atirou e acertou...
...numa mula parda que morreu zurrando e fez a desgraça eterna da sua fama de caçador."
Reportagem feita por Fernando Silva Pinto - Jornal da Tarde, Estado de São Paulo